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O Deus que sangra: a Páscoa em Batman vs Superman

abril 20, 2019

O Deus que sangra: a Páscoa em Batman vs Superman

Um dos melhores filmes que eu assisti nos últimos anos foi Batman x Superman: a origem da justiça. Apesar dos debates acirrados em torno da obra, típico dos filmes da DC, a minha experiência de assistir o longa nas telonas foi sensacional.

A criação de um mito

Uma das coisas que mais me cativaram na obra foi o constante discurso sobre a “divindade” do Super-Homem. As sugestões do kryptoniano como um deus aparecem de diversas formas, desde os diálogos até cenas em que ele parece está sendo adorado por uma multidão.

Mas o filme também mostra o outro lado desse endeusamento. Logo na sua primeira fala, o Superman afirma não se importar com a opinião alheia. De fato, ele faz o que quer: julga quem merece ser punido, rompe barreiras geopolíticas, destrói arranha-céus em suas batalhas colossais. Entretanto, ninguém é capaz de se opor aos seus intentos. Ele se comporta como um deus ditador e inabalável.

A justiça e o mal

Logo essa arrogância mostra seus efeitos colaterais. O ceticismo e indignação do Batman, além do ódio que o Lex Luthor cultiva de Deus, brotam como frutos das atitudes de um herói inconsequente. Fica evidente que o Super-Homem se assume como salvador americano e em consequência o mal se prolifera, “tornando homens bons, cruéis”. Gotham sucumbe num lamaçal de crimes, aleijados e órfãos surgem em Metrópolis, com prédios desabam igual ao 11 de setembro.

Então, toda essa tensão no paralelismo messiânico do Superman é resumido no primeiro encontro com o Batman. O morcego de Gotham, no auge de toda sua impotência, olha para o Super-Homem e pergunta: “você sangra”?

A pergunta é boa. Ela sintetiza todo o poder que torna o Super-Homem incapaz de sofrer qualquer arranhão e ressentimento. Sobretudo, ela é fruto de uma percepção de um deus que age conforme quer, salva quem quer e escolhe lados. Mas para os desfavorecidos, como o Batman, resta se questionar: onde estava o Super-Homem? Onde estava Deus? Ele sente por isso? Ele sangra?

Assim como o Batman, quando a vida imita a arte, repetimos essas mesmas perguntas. Quando o lamaçal invade Brumadinho e Moçambique, quando pais são deixados órfãos pelas chamas, quando o inocente é fuzilado por oitenta tiros. Onde estava Deus? Ele se importa? Ele sangra?

O verdadeiro Deus

Todavia, a resposta vem encarnada em sacrifício. Sim, Deus sangrou. A resposta cristã ao caos e a obscuridade humana é que Deus, em Jesus Cristo, tomou a forma humana e assumiu o sofrimento. Ou seja, o Deus cristão desce de sua majestade e se esvazia até se tornar homem de dores, para então, mostrar que a resposta ao sofrimento e depravação humana não vem atos de heroísmo.

É isso que o filme conclui de modo perspicaz. Não se salva o mundo com poderes, capa brega e trajes especiais. Tampouco com ativismo, justiça própria ou aparato estatal. Antes é pelo amor supremo, sacrifício infinito. É por graça, e graça de Deus.

Isso fica evidente quando o Super-Homem é levado a se sacrificar para matar o monstro que ameaçava Metrópolis. Seu corpo morto é então abraçado pela sua amada, quase que numa analogia da Pietá de Michelangelo, e é possível ver duas cruzes ao fundo da cena. As alusões a Jesus ficam evidentes.

Terceiro ato

Mas então, no terceiro dia, como no terceiro ato da peça onde tudo chega a uma conclusão, vemos o Filho do Homem ressuscitar, e com Ele, a promessa de uma nova vida. Ele traz consigo o início, o aperitivo, a promessa de redenção para toda a criação. Jesus sangrou para estancar nossas feridas e nos dá corpos imunes a murros e portanto, Sua ressurreição é a esperança de que tudo se fará novo. Não apenas compensação e justiça, mas restauração da vida como Deus a planejou. Redenção.

Assim como Dostoiévski, podemos assistir a esse drama e concluir:

Acredito, como uma criança, que o sofrimento será curado e compensado, pois todo o absurdo humilhante das contradições humanas desaparecerá como uma lamentável miragem, como a inominável invenção da mente euclidiana impotente e infinitamente pequena do homem, que no fim do mundo, no momento de harmonia eterna, algo muito precioso surgirá e bastará a todos os corações para aplacar todo ódio, para a expiação de todos os crimes da humanidade, de todo o sangue derramado; algo que tornará possível não só perdoar, mas também justificar tudo o que aconteceu.

Em suma, Batman vs Superman: a origem da justiça é um filme sobre a graça e esperança. Essa é a mensagem da Páscoa. Deus se fez homem para tomar nossa condenação. A justiça se fez injustiça, o poder se fez fragilidade; a glória se fez sangue. O nosso Deus sangrou.

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