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Shallow now, “Juntos” e o Ridículo. Será que nossa vida anda igual?

maio 18, 2019

Shallow now, “Juntos” e o Ridículo. Será que nossa vida anda igual?

Juntos?

O brasileiro não perdoa. Há algumas horas da publicação de Paula Fernandes e Luan Santana de trecho “Juntos” (versão do hit “Shallow” de Lady Gaga), uma chuva de memes sobre o assunto e uma petição com cerca de 14 mil assinaturas pelo cancelamento da estreia completa tomaram conta das redes.

Imitar não é problema

Desde os primórdios da arte humana, o mimetismo é valorizado. A imitação da natureza com maior precisão e fidedignidade tornava-se motivo de aplausos e aceitação do público. Já quando tal efeito não era alcançado, a arte mais facilmente era deixada de lado. Logo, sempre houve valor na repetição mais fiel ou reprodução mais próxima do original. Na cultura da China, por exemplo, a cópia ainda pode ser vista como honra e prestígio à ideia inicial.

O problema é

No entanto, o fato é que a replicação de algo sempre guarda suas devidas proporções e limites. Uma das diferenças de realidade inexorável é a de tempo/espaço. É impossível criarmos novos originais a partir de anteriores. E a comparação revela tal verdade. Portanto, quando não se atenta a isso, o que pode sobrar é a ridicularização, insatisfação e/ou decepção. Como exemplo, temos a recente aversão a “Shallow” de Paula Fernandes e Luan Santana. Sendo assim, “Juntos” pode elucidar a perda da originalidade de nossas próprias vidas, a tentativa frustrada de replicações e a consequente comparação à vida alheia nas redes.

Comparações negativas

Estudo aponta que uso excessivo das plataformas pode estar relacionado a preocupações com a imagem do corpo. Segundo Jasmine Fardouly, – pesquisadora de pós-doutorado da Universidade Macquarie em Sydney, Austrália- “as pessoas estão comparando suas aparências às das pessoas nas imagens do Instagram, ou em qualquer plataforma em que elas estejam, e muitas vezes acabam se julgando inferiores”. Outra pesquisa tem encontrado possível relação entre número de curtidas nas redes sociais e a depressão. Mesmas preocupações compartilhadas nesses últimos dias pela cantora pop Selena Gomez, ao comentar sobre a falta de proteção dos jovens de hoje contra “fake news” e a exposição exacerbada a conteúdos sem filtro.

Comparações sadias

Em contrapartida, não se pode negar que as redes também aproximam histórias e existem sim “comparações” sadias. Como exemplo, há um movimento crescente de mulheres que exibem cicatrizes nas redes sociais para lutar contra ditadura de corpos perfeitos. A psicóloga e professora Amélie Rousseau, da Universidade de Lille, especialista em distúrbios da imagem corporal e transtornos alimentares, ressalta que não há estudos que provem que esse tipo de mobilização tem um efeito positivo para as pessoas que a integram ou a seguem. Contudo, a especialista aponta vantagens deste fenômeno: “Ele mostra toda a diversidade morfológica que faz parte da nossa realidade e mostra também que se está questionando os ideais padrões de magreza, perfeição e beleza”.

É natural…

Assim, é possível (e é natural que aconteça) sermos movidos pelo exemplo ou cicatrizes de outras pessoas. O mimetismo pode mudar nossos próprios hábitos. Buscar referencial nos impulsiona. Em nosso sistema educacional brasileiro, por exemplo, o aprendizado tem muito a ver com repetição. Se você nasceu entre os anos 90, deve ter se deparado com as Caligrafias Gramaticais assim como eu. Mas minha letra cursiva ou “de bastão” nunca conseguiu ser igual ao modelo que seguia. E foi aquele padrão que me proporcionou chegar a uma caligrafia própria legível (e bonitinha, viu?!).

Rasas superfícies

Como “Shallow” nos revelou de maneira inusitada (e dolorosa), não podemos cair na ilusão de reproduzirmos facilmente a história do outro na nossa própria. Surfar a onda do momento de alguém. Opinar o todo por trechos. Imaginar que existam fórmulas prontas para o sucesso, em vez de suor e trabalho duro. Ou de que há um método rápido e único para se chegar à vida ideal, ao corpo ideal, futuro ideal. Escolher os mesmos ‘hits’ da vida não nos garante obter o mesmo resultado. Por trás de um sorriso, pode haver um longo filme de dor, luta e esforço (ou não).

Então, não se iluda! Você tem sua própria bagagem. Você tem uma carga cultural. Você tem sua própria narrativa familiar. Como escreveu um compositor bíblico chamado Davi: Você foi feito “de modo especial e admirável”. Disso, tenha “plena certeza” (Salmos 139:14).

Equilíbrio é a chave

Logo, a saída é encontrar o equilíbrio: nem beirar o ridículo na vã tentativa ou pretensão de ser exatamente igual ao enredo de alguém, nem perder o brilho mimético de encontrar beleza no outro com modelos inspiradores a serem seguidos.

Se representar “Shallow” à altura não for possível, valeu a tentativa!

Não podemos negligenciar que nossa arte e música brasileira tem sim seu encanto e importância.

Todavia,

Que não percamos de vista a busca por excelência, criatividade e referência boa para tanto.

Talvez irmos além da superfície juntos nos ajude.

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