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Eu olhei a tristeza nos olhos e sorri – 17 de Janeiro #1

janeiro 17, 2020

Eu olhei a tristeza nos olhos e sorri – 17 de Janeiro #1

Uma vez li uma pesquisa que afirmava que a terceira segunda-feira de janeiro é o dia mais triste de um ano. Imagino a música 17 de janeiro, de Os Arrais, sendo escrita nesse dia. Ela parece sair daqueles dias em que a magia e as expectativas do novo ano que começam a ceder à realidade das coisas e de quem você é. Afinal, você ainda está no mesmo lugar, igual árvores presas ao solo.

Fato é, assim como o personagem da música em questão, temos dificuldade em impedir que as circunstâncias externas nos abale. Ainda assim, a canção começa com uma afirmação excêntrica: “Eu olhei a tristeza nos olhos e sorri”. Como alguém nitidamente na bad diz algo assim? Isso é possível?

Acredito que o exemplo do apóstolo Paulo na carta aos filipenses também pode nos ajudar a elucidar o caso. Escrita em um 17 de janeiro específico na jornada do apóstolo, dentro de uma cela romana do primeiro século. É em um lugar como esse que a felicidade surge em sua caneta blue. Preso, dolorido e cansado. Como ele consegue? Como olhar a tristeza nos olhos e sorrir?

Deleitar-se em Deus

Paulo deixa pistas no decorrer da carta. Apesar de escrevê-la enquanto preso, a alegria é o tema mais comum em suas páginas, e ela está sempre relacionada a Jesus Cristo. A expressão alegrar-se em Cristo, ou como a NTLH traduz, estar unido a Cristo é a palavra-chave da epístola.

Isso é tão importante que o apóstolo chega a ser insistente: “Tenham sempre alegria, unidos com o Senhor! Repito: tenham alegria!” (Fp 4.4 NTLH); “Para terminar: meus irmãos, sejam alegres por estarem unidos com o Senhor. Não me aborreço de escrever, repetindo o que já escrevi, pois isso contribuirá para a segurança de vocês.” (Fp 3.1 NTLH).

Paulo está se certificando para que os filipenses não se tornem pessoas inseguras. E essa segurança está ligada ao deleite do cristão junto com o seu Senhor. Esse é o chamado hedonismo cristão que o pastor batista John Piper propaga: o prazer em Deus, o deleitar-se nEle. É a partir de Sua glória que devemos nos alegrar, ou como o Piper cunhou, “Deus é mais glorificado em nós quando somos mais satisfeitos nEle”.

Ainda está vago? Veja bem, em Jesus os seus fracassos passados não lhe definem. Os seus erros e pecados não podem lhe culpar porque Cristo retirou toda a culpa e te tornou alguém justo à vista do Pai.

Do mesmo modo, o que o futuro reserva não tem efeito sobre sua paz. Você foi selado com o Espírito para a salvação, de modo que nada pode lhe separar do amor de Deus. Tudo cooperará para o seu bem eterno.

Portanto, o que importa a vergonha e a estima dos homens, se unido a Jesus, o Deus Pai me olha e diz “Esse é meu filho em quem me agrado”? De que vale o controle da minha vida se Deus é quem comanda soberanamente o mar e vento?

Glorifique (sinta o peso, a relevância disso e se alegre) nessa obra (conquista) de Jesus. Esteja unido a Ele e desfrute dessa graça. A obra de Jesus quitou seu passado e financiou seu futuro.

Deus conosco

Mas a coisa é mais profunda. Quando os versículos usam a expressão “unidos com o Senhor”, Paulo nos revela a doutrina extremamente tocante da união mística com Cristo mediante a fé (cf. Ef 1.13). Nas palavras de Lutero: “Dessa união, conforme nos ensina São Paulo, concluímos que Cristo e o nosso espírito tornam-se um só corpo, de forma que tenham tudo em comum, na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, em todas as circunstâncias”.

Todas as nossas circunstâncias são comuns a Cristo. Ou seja, Ele é ciente e participa delas conosco, sejam alegrias, sejam tristezas. Como o autor de Hebreus enfatiza, podemos estar unidos a Jesus porque Ele passou pelas mesmas tribulações que nós e as venceu (Hb 2.18; 4.15–16; 10.22) a fim de ser nosso intercessor perfeito. Ele não está alheio, mas pelo contrário, tem empatia porque vive conosco.

Além disso, Jesus faz mais do que nos dar um tapinha nas costas enquanto passamos por dificuldades. Ele passou pelas mesmas coisas e as venceu. Venceu porque é soberano sobre tudo, não o ser impotente que apenas nos dá apoio moral. Se estamos onde estamos, é porque Deus assim permitiu.

Por que Ele permite que o mal nos atinja? Existe diversos argumentos excelentes que respondem essa pergunta. Mas o certo é que o Deus cristão é o único que faz mais do que apenas explicar a realidade. Ele desce até essa realidade e conhece em primeira pessoa o desespero, a rejeição, a perda, a dor e a morte. Sobretudo, Ele ressuscita, prenunciando uma nova vida, uma redenção, uma restauração dessa realidade imperfeita. Esperança!

Sim, Jesus sente muito. Mas sim, Jesus vence tudo.

Deus em nós

Por fim, há um último aspecto que quero enfatizar. Essa união que temos com nosso Senhor, faz com que já não sejamos mais nós que vivemos em nosso corpo, mas Cristo que vive em nós. Isso é resumido na mesma carta aos filipenses, no versículo 1.21: para mim o viver é Cristo.

Paulo não quer dizer apenas que a sua vida é para Cristo, mas que o seu viver é o próprio Cristo. Seus membros, sua ambição, seus passos, tudo é governado por Cristo de tal forma que já não há Paulo, mas Jesus.

Por isso que, Hernandes Dias Lopes, ao comentar a epístola, afirma que, “[Paulo] olhava para a vida com os olhos de Deus”. O apóstolo tem sua felicidade não em função do que suas mãos fizeram. Muito menos do que o mundo fez com ele. Sua felicidade deriva do prazer sobre o que Deus fez e continua fazendo nele.

Do mesmo modo, é assim que podemos dizer: eu olhei a tristeza nos olhos e sorri.

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