Relacionamento Todavia

Objetos são intercambiáveis, pessoas não

janeiro 14, 2020

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Objetos são intercambiáveis, pessoas não

“Tu não és ainda para mim senão um garoto inteiramente igual a cem mil outros garotos. E eu não tenho necessidade de ti. E tu não tens também necessidade de mim. Não passo a teus olhos de uma raposa igual a cem mil outras raposas. Mas, se tu me cativas, nós teremos necessidade um do outro. Serás para mim único no mundo. E eu serei para ti única no mundo…” (Pequeno Príncipe, p. 66). Há uma multidão de diferenças entre pessoas e objetos. Uma primeira tem a ver com o atributo da ‘intercambialidade’: objetos são intercambiáveis, pessoas não.

Suponha, para seguir um exemplo de Roger Scruton (em Desejo Sexual, Beleza e Alma do Mundo), que você queira um copo d’água. Você quer saciar sua sede e, por isso, qualquer copo d’água serve. Seu desejo não se volta para um copo específico (talvez não seja sequer necessário um copo). O único objetivo do copo é usá-lo para satisfazer um apetite, que neste caso é a sede.

Não é assim com as pessoas.

Meu desejo é sempre por uma pessoa individual, por um ser humano específico. O desejo sexual é diferente do meu desejo pelo copo d’água pois ele está direcionado para um indivíduo. É uma mulher particular que é concebida como fonte e fundamento de meu interesse.

Por isso, o desejo é sempre intencional e encarnado. Encarnado porque minha paixão sempre se volta para uma mulher específica e concreta, não para uma abstração. “Não passo a teus olhos de uma raposas igual a cem mil outras raposas”, lembra a raposa ao Pequeno Príncipe, “mas, se tu me cativas […] serás para mim único no mundo”. Ninguém efetivamente consegue amar verdadeiramente uma abstração (e.g., a humanidade); só amamos indivíduos encarnados. Amar abstrações é uma forma de amar a si mesmo.

Além disso, o desejo é sempre intencional. No capítulo 5 de Cantares, Sulamita vai atrás do amado por Jerusalém. Na sua busca, ela se depara com algumas mulheres e faz um pedido: “Prometam, mulheres de Jerusalém: se vocês encontrarem o meu amado, digam que estou morrendo de amor.” (v. 8).

Mas as mulheres acham tal pedido exagerado: “Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, ó você, das mulheres a mais linda? Que diferença há entre o seu amado e outro qualquer, para você nos obrigar a tal promessa?” (v. 9). E a Sulamita começa a descrever uma pessoa específica, encarnada, uma consciência individual na qual ela dirige seu amor (v. 10-16).

O desejo sexual não quer meramente dar vazão a um apetite, mas ele sempre tem como alvo um objeto específico. É por isso que o ‘Eros’ é menos um impulso e mais um anseio.

Pense no amor de Jacó por Raquel. Seu desejo pela filha mais nova de Labão não pode ser satisfeito por Lia, ainda que aquela noite tenha sido uma noite de prazeres, pois a questão do desejo não se dá como mera satisfação de um apetite corporal, mas como vetor de uma paixão para uma pessoa específica. O desejo de Jacó tinha um objeto específico – Raquel. Por isso, a crueldade da história está justamente em Labão tratar as próprias filhas como alguém está a tratar uma mera mercadoria – “primeira a mais velha, depois a mais nova”, como se as duas irmãs fossem membros de uma classe abstrata de ‘irmãs’ e tivesse de ser negociadas nos termos certos, e não seres humanos reais.

Essa é a grande tragédia de Admirável Mundo Novo, onde numa sociedade completamente conduzida pelo prazer e onde todos são ‘obrigados’ a satisfazerem seus impulsos, a paixão pessoal por uma pessoa específica não tem lugar e o amor é livre (todos podem fazer sexo com todos, sem repressão). Um dia, o personagem Bernad escuta seu amigo Henry falar como fez sexo com Lenina. O gênio de Huxley está em fazer das palavras de Henry uma coisa vazia: elas soam completamente sem significado e afeto; é como se Lenina fosse um mero objeto para uso. Enquanto escuta, Bernard parece, de repente, tomado por um ‘primitivo’ desejo de ‘ciúmes’.

Um dia, Bernard convida Lenina para viajar e conhecer uma ‘Reserva de Selvagens’, lugar onde os habitantes ainda preservam os ‘antigos costumes’, a saber, o ‘amor’ não é livre, as pessoas formam famílias, a paixão por uma pessoa específica existe e elas decidem formar laços afetivos sem condicionamento científico.

“Quero saber o que é paixão”, ela [Linda] ouviu Bernard dizer, “quero sentir alguma coisa com intensidade”. “Quando o indivíduo sente, a comunidade treme”, declarou Lenina.

É nesse sentido que a beleza é central na vida humana.

Ela nos convida a receber o outro como uma pessoa, como um ser individual, a fim de nos deleitarmos com sua presença. “Pode haver sessenta rainhas, oitenta concubinas e muitas moças”, diz o rei (ou o coro) no livro de Cantares, “mas eu amo somente UMA”. (Cantares 6.9).

É aqui que um relacionamento efetivo, a dois, deve acontecer. A ‘tinderlização‘ dos relacionamentos trata o outro como se fosse tão descartável como são os objetos do capital. Essa é a grande tragédia da contemporaneidade: colocar os próprios prazeres e impulsos acima do outro específico.

O outro precisa ser recolocado como a finalidade do desejo (não como meio para a satisfação de um desejo) e o prazer precisa ser visto como uma forma de expressar amor, não como uma forma egoísta de dar vazão a um impulso.

 

 

Autor convidado: Bruno Ribeiro

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