Todavia

Por uma vida ordinária

fevereiro 5, 2020

Por uma vida ordinária

(por Thiago Dutra)

Antes de ser cristão, familiares viam minhas notas e diziam que eu seria uma pessoa super importante. Quando passei em Direito numa Universidade Federal, todos começaram a achar que aquelas palavras da infância seriam reais. Neste mesmo período, me converti e as pessoas da igreja diziam coisas parecidas para mim. Eu seria a geração do avivamento e pregaria para multidões.

O tempo passou e eu já acelerei o máximo que conseguia até começar a perceber que a vida estava me mandando frear um pouco. Muitos foram os sintomas e as frustrações, mas no final, ficou aquela sensação de que faltou “mudar o mundo”.

O livro “Simplesmente Crente”, Michael Horton, critica esta vida hiperbólica com a qual nos acostumamos.

“Experiências espetaculosas, milagres extraordinários, superapóstolos, pastores celebridades, eventos hollywoodianos, teólogos e teologia de rede social e internet, enfim, todas essas coisas parecem fazer o frequentar os cultos dominicais e o viver a vida comum da igreja uma coisa apática e insossa.”

Nos acostumamos a assistir apenas aos filmes indicados ao Oscar e ouvir as musicas premiadas. É por isso que demoramos tanto para escolher o que assistiremos na Netflix (e às vezes não nos decidimos por nenhum). Não perderemos nosso tempo por algo menor que fantástico.

Transformamos o extraordinário em corriqueiro e agora queremos que a vida seja sempre assim, mas ela não é! Desvalorizamos o simples, pois ele não se posta no Instagram. No fim, a geração que tem acesso a tudo que é hipérbole, tornou-se a geração de estressados e depressivos.

Na igreja, é normal falar daquilo que não é ordinário, pois vemos conversões de idosos, milagres em casais, louvores que trazem os jovens mais céticos às lágrimas. Tudo isto nos anima a querer estar sempre no nível do impossível. 

Contudo, o dia a dia de congregar também não é assim. O simples bate à nossa porta e nos convida à ceia e à comunhão com os irmãos. Quando chegamos em casa, também vemos que na vida é tudo bem ordinário.

No livro do Michael Horton, acompanhamos uma história que exemplifica bem tudo isso.

“Tinha quase 22 anos e acabara de voltar à cidade onde cursei faculdade depois de passar pela África, num local que estava três séculos atrasado. Enquanto ia até a igreja com minhas sandálias gastas, encontrei o novo pastor auxiliar e me apresentei. Ele deu um grande sorriso e disse: “Ah, você. Ouvi falar de você: a moça radical que quer gastar sua vida por Jesus”. Ele dizia isso como elogio, e entendi assim, mas senti também muita pressão porque, de um modo novo, eu estava torturadamente incerta quanto ao que significava para mim o ser radical e viver por Jesus. Lá estava eu, de volta aos Estados Unidos, precisando de um emprego e de seguro de saúde, pensando em namorar esse estudante de direito intelectual (que não era assim tão radical), incerta de como ser fiel a Jesus em minha vida corriqueira e normal. Agora estou na casa dos trinta anos, tenho dois filhos e vivo uma vida um tanto comum. Aos poucos reconheço que, para mim, é muito mais assustador e difícil estar em casa o dia todo com um bebê e um garotinho de dois anos do que viver num vilarejo africano destruído pela guerra. O que preciso é de coragem para o comum, para o corriqueiro, para a mesmice de todo dia da vida. Cuidar dos aluno sem-teto é muito mais empolgante para mim do que escutar atentamente às pessoas da minha casa. Dar roupas e buscar comunidades cristãs na periferia requer menos de mim do que ser bondosa com meu marido numa manhã comum de quarta-feira ou telefonar de volta para minha mãe quando não sinto a mínima vontade de fazer isso. 

[…] 

Quando (meu marido) voltou para casa, cansado e abatido, conversamos sobre o que havia dado errado. Tínhamos cursado uma universidade de altíssimo grau, onde as pessoas conseguiam grandes coisas. Escreviam livros e começavam organizações não governamentais. Repetidamente, as pessoas nos diziam que transformaríamos o mundo. Fazíamos parte de um movimento cristão de jovens que nos estimulava a viver corajosa e significativamente, fazendo discípulos, que batizava esse ímpeto de mudar o mundo como a forma de realmente seguir a Jesus. Éramos desafiados a impactar e servir o mundo de formas radicais, mas nunca aprendemos a ser pessoas comuns, que vivessem a vida corriqueira de maneira bela. Uma conhecida casa de uma comunidade do novo monasticismo tinha uma famosa placa na parede que dizia: “Todo mundo quer revolução. Ninguém quer lavar a louça”. Hoje em dia a minha vida está rica de louça (e fraldas) sujas e as revoluções estão em falta. Frequento uma igreja cheia de pessoas mais velhas, que vivem vidas normais de classe média, em boas casas de classe média. Mas tenho realmente passado a valorizar essa comunidade, a ver o tempo delas em firme fidelidade a Jesus, seu compromisso com a oração e a generosidade palpável e bela que demonstram aos que os cercam, de maneiras não notáveis, não impressionantes, que não podem ser colocadas no mercado, nada revolucionárias. E a cada semana, nós pecadores medianos e santos chatos nos ajuntamos em volta de pão e vinho comuns, e o próprio Cristo está ali conosco.

Mas cheguei ao ponto em que não tenho mais certeza sobre o que exatamente Deus considera radical. Suspeito que para mim, lavar a louça quando falta sono e paciência custa muito mais e necessita maior revolução em meu coração do que algumas das coisas mais arriscadas que vivi no passado. Assim, é o que preciso no momento: coragem para enfrentar um dia comum—uma tarde com um bebê com cólicas, quando provavelmente vou ser ríspida com meu garotinho de dois anos e me irritar com meu vizinho barulhento—sem desespero, é preciso coragem para crer que uma vida pequena ainda é uma vida significativa, e é preciso graça para saber que o Senhor me vê e me ama mesmo que eu não tenha feito nada poderoso ou ousado ou até mesmo interessante, e isto me basta.

[…]

Mudar o mundo pode, na verdade, ser uma maneira de evitar as oportunidades que temos todos os dias, exatamente onde Deus nos colocou, de glorificá-lo e ter nele prazer, enriquecendo a vida do próximo. É fácil demais fazer das outras pessoas um elenco de coadjuvantes para o filme de nossa vida. O problema é que elas não seguem o roteiro nem emitem as falas que nós lhes damos. São pessoas de verdade, com necessidades reais, que atrapalham nossa trama, especialmente se elas tiverem ambições tão fortes quanto as nossas. Às vezes, ir atrás dos nossos sonhos pode ser “mais fácil” do que sermos aquilo que somos, onde Deus nos colocou, com os dons que ele nos deu.

Para entendermos que o ordinário tem valor precisamos de uma cosmovisão da vida que enxergue tudo como uma redenção da criação. Assim, cuidar dos filhos e lutar por um lar sadio é sim algo incrível. Trabalhar todos os dias e implantar o Reino na esfera que estamos é um ministério incrível. 

“Tirar férias de verão para construir poços na África é, para algumas pessoas, um chamado autêntico. Mas também o é consertar o encanamento da casa de um vizinho, alimentar a família e compartilhar o fardo e as alegrias de uma igreja local. Aquilo que somos chamados a fazer todos os dias, exatamente onde Deus nos colocou, é rico e compensador.” (Michael Horton)

Meu corpo já estava cansado de buscar o extraordinário e já carregava muita frustração por tudo que ouvi quando criança e acreditei quando adolescente sobre como seria meu futuro. Este futuro não chegou, chegou apenas um futuro comum e ordinário, e ele é maravilhoso! 

One Comment
  1. Luana

    Que saudades do todaviaaa!!! Melhor conteúdo! Ainda não terminei o livro, mas to muito feliz com a publicação sobre esse tema aqui...

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